Décimo Capítulo – A Espiritualidade dos Casados: Como vivê-la?
Acompanhemos e aprendamos o que o competente casal autor tem a dizer sobre o tema acima citado, graças ao notável conhecimento doutrinário sobre a matéria e sua longa experiência em mais de 50 anos de vida conjugal, ornados com numerosa prole. Ouçamos, com atenção, o que tem a dizer (p. 109/111).
- Uma ideia fundamental
As pessoas casadas devem procurar sua via de santificação em tudo aquilo que se apresenta “com as características normais do amor natural” (FC 13).
Nos encontros, nas homilias ou retiros para leigos casados, a tônica geralmente é pregar como ideal cristão um tipo de piedade e de vida espiritual que tanto é dirigida para solteiros como para casados, tanto para leigos como para religiosos, tanto para jovens, adultos ou idosos, independentemente do estilo de vida que abraçaram. A força santificadora que o matrimônio confere ao amor natural, desejado por Deus desde o “princípio” dos tempos, quase nunca é abordado.
Em boa parte, a lacuna se dá por culpa dos casados que desconhecem a beleza e o valor de seu sacramento. Ou então, quando sabem de seu rico significado, sentem-se atemorizados de divulgar o que a vida matrimonial lhes proporciona como meio de santificação. Preferem a comodidade de deixar os sacerdotes – supostamente conhecedores da doutrina – a incumbência de falar de um tipo de vida que não o seu, de algo que lhes falta a necessária vivência, de assunto que aprenderam quando muito em teoria, ou que tiveram conhecimento através do confessionário, onde se despeja toda a patologia do amor.
Poderiam ser citados leigos que pregaram sobre assuntos religiosos com muita competência. Um dos mais famosos é Inácio de Loyola, que pregou seus “ejercícios espirituales”, durante muito tempo, como um simples leigo, inclusive quando conseguiu a conversão de São Francisco Xavier e vários outros... Entre eles havia mesmo um, Pedro Fabro, que era sacerdote, o único, aliás, entre os fundadores da Ordem.
É perfeitamente possível os casais se manifestarem na Igreja de Deus, desde que, obviamente, se preparem e tenham, principalmente, uma inabalável confiança no Espírito Santo. O casal autor (p. 114), a partir deste ponto, resolveu então sair do campo teórico-doutrinário, onde vinha desenvolvendo o assunto para deixá-lo bem claro, para ingressar em outro tipo de reflexão: aquela extraída da sua própria vivência e comprovada com a vida de inúmeros casais que tiveram a alegria de conhecer, para buscar sua santificação no e pelo casamento.
Esclarece o casal autor, que o tema apresenta inúmeras situações que poderiam ser abordadas, o que torna difícil e complicado querer sistematizá-las ou ordená-las de algum modo. Como o que se deseja é colocá-las em comum, serão tratadas conforme a oportunidade.
- Descobrir o outro
Devemos nos lembrar que o amor conjugal para crescer deve tender para a unidade do corpo ao espírito, abrangendo todos os componentes dos dois, desde a pulsão sexual até as necessidades básicas individuais (FC 13), como consta concisamente no Gênesis: “e os dois serão uma só carne” (Gn 2,24).
A busca da unidade, que pode parecer fácil no primeiro momento, logo vai mostrando suas dificuldades normais, psiquicamente falando. Basta lembrar do sugestivo título que John Powell, SJ, deu a um de seus livros: Why am I afraid to tell you who I am? (Por que tenho medo de contar a você quem eu sou?).
Consciente da necessidade do aprofundamento do conhecimento recíproco, o casal que deseja viver sua espiritualidade deve procurar encontros onde possa dialogar além da conversa descompromissada do dia a dia. Um assunto que ajuda muito é recordar o passado, o tempo de meninice e juventude, os folguedos e amizades de escola, os problemas da puberdade, o relacionamento com os pais e irmãos.
Até mesmo as conversas do cotidiano exigem, por vezes, o exercício da paciência e abnegação. Nas famílias onde apenas o marido trabalha fora, quando chega em casa, exausto após passar o dia resolvendo situações difíceis e problemas complicados, ansioso por uns momentos de descanso, precisa de uma dose exagerada de paciência para escutar a esposa, que passou o dia quase sem poder conversar e aguarda aquela horinha para trocar ideias, saber como as coisas correram, queixar-se de seus problemas, desabafos.
Que dizer, então, da situação quase normal, atualmente, quando a mulher também sai para trabalhar fora de casa? Que espaço se exige dos dois, pai e mãe, para encontrar tempo e disposição para se dedicar aos filhos? Que tempo sobra para escutar o outro, para os dois juntos cultivarem seu amor? Hoje em dia as dificuldades que surgem são imensas. O casal necessita acreditar na força do sacramento do matrimônio. Deve reiteradamente se lembrar que a cada esforço e gesto de amor, as graças do sacramento vêm fecundar o esforço e garantir novas energias para superar as dificuldades e, assim, fazer crescer o amor que os une, como acertadamente diz o casal autor.
Por hoje, já temos bastante material para refletir. Encerremos. (Continua no TEMA 20 – Março - Dia 30)
Agradecendo a Nossa Senhora sua proteção, sempre lembrando que “... sem mim nada podeis”. (Jo 15,5)
Idalina e Fernando
Equipe de Nossa Senhora do Monte Serrat
Santos/SP
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