Quinto Capítulo – O Matrimônio na
visão do Vaticano II
1. Vínculo conjugal: Efeito primeiro da graça
sacramental
Vimos no
tema anterior que o casamento, a mais natural das instituições humanas, foi
elevada à condição de sacramento, isto é, de caminho preferencial da graça.
Neste quinto tema, vamos ver como isto se realiza.
Dentre
outros ensinamentos, recordamos o do cardeal Tettamanzi, que, ao se referir ao elemento essencial, aquele que faz com
que a união do homem com a mulher seja um sacramento, “é tão somente o amor conjugal”.
Novidade?
Não o é. Lá no Concílio de Trento, realizado de 1545 a 1563, já foi proclamada
essa verdade. Resumidamente:
Aperfeiçoar o amor natural.
Confirmar
a unidade indissolúvel.
Santificar os cônjuges.
(O grifo é
dos autores).
Assim
também ensinou o Papa Paulo VI que o vínculo conjugal possui “as
características normais do amor conjugal natural”. E o que é esse amor natural?
O casal autor foi muito feliz ao defini-lo como “aquele que leva um homem a
unir-se a uma mulher e ela a ele, sejam eles católicos, budistas ou até mesmo
ateus. É aquele que surge porque ele é macho e fêmea. É aquele que envolve
completamente os dois, deitando suas raízes no somático e no psíquico, no
erótico e no afetivo, no sensível e no intelectivo, em suma, nas profundezas do
ser de um e do outro, como o Gênesis já declarara: “os dois serão uma só carne”.
São João
Paulo II, ainda quando cardeal, teve oportunidade de dizer que não paira dúvida
alguma que o efeito primeiro do sacramento, aquele que vem à frente de qualquer
outro, que atua de forma direta e imediata, sem necessidade de mais nada para
alcançar o objetivo previsto pelos ensinamentos do magistério: o aprimoramento
e o crescimento do amor que une os esposos. É como se estivesse dizendo que o
vínculo conjugal é a semente primeira do processo, e ela é o início de tudo.
Então perguntamos: O ensino da Igreja mudou? Ou melhor, o
ensinamento transmitido pelos teólogos e pregadores mudou? Ou será que saímos
de um longo período de asfixia da boa doutrina?
E, de fato, a doutrina tridentina foi esquecida. Seguindo o Vaticano II,
o Papa Paulo VI, em discurso aos membros das Equipes de Nossa Senhora que os
visitara, proclamou:
A dualidade dos sexos foi querida por Deus
para que homem e mulher fossem imagem de Deus, pois não há amor conjugal que
não seja, no momento de sua exultação, um impulso para o infinito.
2. Visão sacramental
A
Conferência Episcopal Latino-Americana (CELAM), em suas sugestões enviadas ao
Sínodo sobre a Família, declarou que o encontro sexual é o momento de máxima densidade sacramental.
Significa, como diz o casal autor (p. 62), que essa entrega mútua total é o
momento, por excelência, da eficácia da graça divina, levando o casal à
realização do desígnio divino de “serem uma só carne”, um só corpo, uma só
pessoa.
3. Sacramento permanente
Sob este título, vamos destacar uma diferença
essencial entre o sacramento do matrimônio e os demais: a permanência. Não se
esgota com a realização da cerimônia, mas permanece pela vida inteira.
Repetindo o pensamento do Pe. José Comblin:
“Há uma diferença importante entre o matrimônio e
os demais sacramentos. Os demais são momentos breves, o tempo de uma liturgia.
Pelo contrário, o que faz o sacramento não
é a cerimônia, mas a vida conjugal. Portanto, é um sacramento que dura não o espaço de uma liturgia, e
sim a vida inteira. De certo modo,
pelo sacramento do amor, a vida inteira torna-se
um sacramento.”
O casal autor (p. 63) insiste muito na vivência do
sacramento. Será que nós, cristãos casados, temos consciência da vitalidade
espiritual de nosso amor, vitalidade que se manifesta nos gestos de carinho,
afeição, ardor, paixão, entrega que gravam nossa existência?
Interessante é que esses aspectos da vida conjugal
já foram constatados há muito tempo (séculos), mas ficaram depois esquecidos.
Assim, um dos maiores Padres da Igreja, São João Crisóstomo, reconheceu a
profundidade e o valor da vivência do casal aos olhos de Deus e chegou a dizer
que “a vocação no casamento não fica nada
a dever à religiosa”.
E como o sacramento permanece? Justamente pelos
atos próprios do matrimônio, que são assim sinais sensíveis e eficazes (pede-se
ver definição de sacramento) que, pelos méritos de Cristo, conferem a
graça. São, pois, atos sacramentais.
São aspectos da vida conjugal de maior importância
para todos nós - como diz o casal autor (p. 66) – que buscamos, na
espiritualidade própria do casamento, o caminho da santidade, dispensando ou
exigindo coisas extraordinárias e exageradas mortificações, que deram fama a
tantos santos.
Agradecendo a Nossa Senhora sua
proteção, sempre lembrando que “... sem
mim nada podeis”. (Jo 15,5)
Idalina e Fernando
Equipe de Nossa Senhora do Monte
Serrat
Santos/SP
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