TEMA 16 - AMOR CONJUGAL – Algumas reflexões (Continuação)
Oitavo Capítulo – O “Mysterion” do casal
Estamos querendo desenvolver o tema da espiritualidade conjugal. Falar em conjugal lembra a ideia de cônjuge e, implicitamente, em casal. Já paramos para pensar: como surge um casal? O nosso próprio? Em um primeiro momento, podemos até enumerar as causas imediatas, provavelmente de natureza física: o olhar, o falar, o rosto, a postura, o andar... enfim, podemos enumerar um sem fim de motivos pelos quais nos decidimos pelo cônjuge, ele por ela entre tantas que conheceu antes da decisão e, do mesmo modo, ela por ele.
A questão mais profunda, entretanto, vai além: por que isso ocorreu com ele ou com ela e não com outro ou outra? Por que o encantamento recíproco que os levou a se decidirem, com exclusividade, um pelo outro?
É, enfim, um mistério. Na realidade, o encontro apaixonado de uma mulher e um homem, como previsto pelo Criador, “desde o princípio”, não decorre da fatalidade do destino, mas sim, encerra um verdadeiro mistério, o mistério do casal, respeitando a liberdade humana, enquanto tal e “por isso deixará o homem o pai e a mãe, e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne” (Gn 2,24).
A palavra “mistério” a que acabamos de nos referir, tem um sentido mais rico e profundo do que geralmente se pensa. Não tem apenas o significado de algo enigmático. Ela provém do grego “mysterion”. Veio inicialmente no relacionamento com a divindade, no trato respeitoso do homem com os deuses. E, por extensão, a palavra passou a significar tudo o que é inerente à divindade ou às coisas dos deuses.
No princípio do Cristianismo, o Apóstolo Paulo teve oportunidade de empregar a palavra várias vezes. Assim, exemplificando, na Epístola aos Romanos termina falando “no mistério envolvido em silêncio desde os séculos eternos” (Rm 16,25).
E, nesse sentido respeitoso, a palavra continua a ser empregada no ritual eucarístico. Logo após a consagração, o celebrante proclama: “eis o mistério da fé”.
Tem-se verificado, no entanto, que o mistério do casal, que também é um mistério de fé, não tem recebido a atenção merecida, o que faz muita falta. Assim, na Pastoral Familiar admite-se a priori, mas não corresponde à realidade, que os pais e mães de família são muito católicos, todos muito bem formados, todos conhecedores da doutrina conciliar sobre o casamento, todos praticantes convictos de espiritualidade própria de quem se casou, como diz o casal autor (p.90).
A finalidade precípua do sacramento do matrimônio, por exemplo, definida no Concílio Tridentino há mais de quatro séculos e já visto no Tema 13 (Dezembro, dia 15/2016), não é divulgada com a importância devida: Aperfeiçoar o amor natural...
O Vaticano II também se manifestou com muita clareza:
“Uma vez que o Criador de tudo constituiu o matrimônio como princípio e fundamento da sociedade humana, o apostolado dos cônjuges e das famílias assumiu importância singular, sendo que a tarefa dos esposos chega a formar a contribuição máxima para manifestar e provar, por sua vida, a santidade do vínculo matrimonial” (Decreto Apostolicam Actuositatem, 11/1370).
É oportuno destacar nesta oportunidade um aspecto do mistério divino dos casais. O casal constitui uma realidade nova, distinta de marido e mulher, mas integrada e formada pelos dois. No dizer do Pe. Caffarel, é uma nova criatura, o “ser conjugal”.
Dentro da mesma linha, o Episcopado italiano, em documento pastoral, declarou que o casal é “um novo modo de ser” na Igreja, um novo ente que, por isso mesmo, “ocupa um lugar especial no seio do povo de Deus. Com um status próprio”.
Como conclusão, deduz-se que o casal possui sua própria vocação, distinta das vocações individuais dos esposos. Em outras palavras, são duas vocações que se fundem, dando origem à vocação específica do casal. Um chamado divino à santidade. E como buscá-la?
Em Conferência em Roma, no ano de 1959, o Pe. Caffarel, nosso fundador, já dizia, antes, portanto, do vaticano II (1962):
“Oração, caridade, abnegação, pobreza, castidade, apostolado se impõem a todo o cristão, casado ou não. Mas essas virtudes não são vividas por cristãos casados da mesma forma que por monges.”
Agradecendo a Nossa Senhora sua proteção, sempre lembrando que “... sem mim nada podeis”. (Jo 15,5)
Idalina e Fernando
Equipe de Nossa Senhora do Monte Serrat
Santos/SP
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