COMPROMISSOS DO SETOR

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

TEMA 15 - AMOR CONJUGAL – Algumas reflexões (Continuação) Sétimo Capítulo – A Espiritualidade: Uma ideia do que é


Recorrer a um dicionário não vai ajudar muito. Todos dizem, com estas ou outras palavras, que a espiritualidade é tudo o que concerne à vida espiritual. Podemos, entretanto, iniciar o assunto “espiritualidade” com algumas de suas visões distorcidas.
Conceitos distorcidos
  1. Assim, pensar logo que esta consiste, basicamente, em rezar o terço, seguir novenas, praticar certas devoções e assim por diante. Ou então, viver na Igreja, acompanhar procissões, jejuar ou outros tipos de penitência são apenas alguns aspectos que a espiritualidade pode assumir.
Outra confusão também frequente provém da influência do platonismo que considera indubitavelmente a divisão do ser humano entre o corpo e a alma, o material e o espiritual. A visão platônica sustentava a completa superioridade das coisas ligadas ao espírito diante da clara inferioridade das coisas provenientes da vida corporal, o que não é verdade. Assim, por exemplo, há pecados contra a castidade, oriundos de “maus pensamentos”, cuja culpa não cabe ao corpo.
A distinção radical corpo e espírito foi, mesmo na antiguidade, contestada. Um célebre poeta latino, Lucrécio, que viveu no século anterior a Cristo, já dizia em seu livro De rerum natura: “assim como não há peixe sem água, nem árvore sem terra, não existe alma se não houver seu sangue, seus nervos, corpo que a contenha”.
Conceitos corretos
  1. Passemos a ver conceituações corretas do binário corpo x espírito. Em artigo publicado na revista “L’anneau d’or” pelos idos de 1960, o nosso fundador, Pe. Caffarel, depois de recordar a frase amargurada do escritor François Maurice, “o Cristianismo não deixa lugar à carne; ele a suprime”, lança seu pensamento que reflete com realismo a perversa distinção de Platão:
O homem não é feito de dois elementos contraditórios ou mesmo divergentes: o corpo e o espírito. Ele é um corpo animado por uma alma – uma alma que se acha encarnada. O homem é um todo, uma unidade.
João Paulo II, por sua vez, em sua “Carta às Famílias” (n. 19, Edições Paulinas, p. 93) disse:
O corpo nunca pode ser reduzido à pura matéria: é um corpo espiritualizado, assim como o espírito está tão profundamente unido ao corpo que se pode qualificá-lo como um espírito corporificado.”
Outras citações poderiam ainda ser feitas, mas preferimos fazer uma ponderação muito útil. Como diz o casal autor (p.8), “a espiritualidade não é, de forma alguma, algo que nos leva a uma fuga da realidade, a um mundo ilusório, a um sentimento de estar pairando nas alturas, sentindo como que um odor de santidade no que se faz, desejando estar longe do mundo profano, isolado das trivialidades da vida, dos acontecimentos do dia a dia. Nada disso. Até bem pelo contrário, a espiritualidade é profundamente encarnada, enraizada no cotidiano, vivenciada através da vida comum de cada dia, chova ou faça sol”.
  1. A espiritualidade, o que é então?
Todos fomos chamados à santidade; é a vocação de todos. No dizer de Frei Miguel OP: “A espiritualidade é um caminho para se chegar a Deus, movido pelo espírito no conjunto das realidades em que vivemos.”
Destacamos a palavra realidades justamente para repetir, para insistir, para enfatizar que a espiritualidade não é uma fantasia, um mundo angelical, mas sim nas realidades de cada um de nós, na agitação de nossas vidas e surpresas boas, mas nem sempre e desconcertantes, frequentemente. E, então, como conciliar?
Para viver a espiritualidade, portanto, é indispensável pedir constantemente o dom gratuito da fé. “Eu creio, mas me ajuda em minha pouca fé” (Mc 9,24). Muito antes, os profetas já entenderam essa postura. Nessa oportunidade de sua obra, o casal autor lembrou-se (p. 83) do profeta Baruc: Só através do espírito de fé vamos “adquirir um coração apto para entender e um ouvido capaz de ouvir” (Br 2,31) o que o Senhor nos pede em cada situação e em cada acontecimento. A espiritualidade exige, pois, a humildade de rezar como o rei Davi: “Ensina-me a cumprir tua vontade, porque tu és meu Deus. Teu espírito bom me guie por uma estrada plana” (Sl 14 3,10).
Muitas outras citações poderiam ser aduzidas para a aquisição da espiritualidade e todas elas insistem em ser indispensável a atuação da força do alto (Lc 24,49; At 1,8), mais conhecida como graça. E, agora, será mais fácil entender o significado de espiritualidade.
Conclusão
A espiritualidade conjugal é o caminho para aperfeiçoamento do amor natural com o auxílio da graça divina para se atingir a santidade; caminho este que é um processo dinâmico, contínuo da busca do conhecimento, interpretação e discernimento da vontade de Deus para o casal.
Agradecendo a Nossa Senhora sua proteção, sempre lembrando que “... sem mim nada podeis”. (Jo 15,5)
Idalina e Fernando
Equipe de Nossa Senhora do Monte Serrat
Santos/SP

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