TEMA 05
– Agosto / 2016
Carta
Encíclica do Papa Bento XVI (Continuação)
8. Ao
refletir sobre a imagem do ser humano, SS foi buscar no Gênesis o que temos de
mais profundo, mais íntimo em nossas almas.
Lendo pausadamente o capítulo 2 do
Gênesis, encontramos a criação do mundo, escrita de um modo muito denso e
objetivo, onde cada passagem é muito significativa ao estilo da época e
circunstâncias reinantes em que foi narrada. Em Gn 2,7, encontramos:
“O Senhor Deus formou, pois, o
homem do barro da terra e inspirou no seu rosto um sopro de vida...”
Para
mostrar todo o apreço pela criatura, diz o narrador que tendo plantado um
paraíso de delícias (Gn 2,8-15) “tomou,
pois, Yahweh o homem e colocou-o no paraíso de delícias, ...” . Não
obstante ter o Senhor Deus coberto o homem com toda grandeza da criação, disse:
“Não é bom que o homem esteja
só.”
(Gn 2,18)
Tudo
que fora criado não fora suficiente:
“Mas não encontrou quem lhe
correspondesse.” (Gn 2,20)
O
drama da solidão, apesar de tanta companhia, não fora vencido. Ainda que ali
estivesse “o compêndio universal de todas as criaturas”, como dizia o Pe.
Vieira, nenhuma delas superava o existencial isolamento do ser humano. Apesar
de tão numerosa profusão de animais, a solidão ainda reinava. O narrador assim
continua:
“Mandou, pois, Yahweh um
profundo sono a Adão; e... tirou uma de suas costelas e pôs carne no lugar
dela...formou Yahweh uma mulher.” (Gn 2, 21)
Muitas
reflexões podem ser tiradas dessa passagem da Escritura Sagrada. Uma primeira é
que a mulher é dotada da mesma matéria do homem. A segunda seria mais uma
ilação do que propriamente uma reflexão. Tanto na tradição cristã como na
judaica, a retirada da costela e, portanto, do lado de Adão, seria para mostrar
que a mulher não foi extraída da cabeça para dominar o homem, mas também não
veio dos pés para ser subordinada. O Senhor Deus modelou uma companheira capaz
de vencer a solidão do homem. Ao proceder assim, Yahweh inspirou o primeiro
poema lírico da humanidade sobre o sucesso da mulher nas palavras de Adão.
“Este, sim, é o osso dos meus
ossos, carne de minha carne. Será chamada de ´ishsha´ porque foi tirada do
´ish´”. (Gn
2,23)
São
João Paulo, quando ainda Papa, em seus claros ensinamentos ressaltou: “no primeiro
ser humano, a Bíblia chama de homem (há-hadamah), ao passo que, desde a criação
da primeira mulher, passa a chamá-la de ´ishsha´ (fêmea) porque foi tirada do
´ish´ (macho)”.
A
abordagem assim exprime, com a profundidade de seu realismo, a força e a beleza
da comunhão sexual do homem com sua mulher, oriunda de um amor que nasce de “um
misterioso atrativo recíproco”, como pondera São João Paulo.
Em
outra passagem, diz o mesmo pontífice: “O corpo humano, com seu sexo, sua
masculinidade e feminilidade, visto no mistério da criação, é não só fonte de
fecundidade e de procriação, como em toda ordem natural, mas encerra desde o
princípio o atributo esponsal, isto é, a capacidade de exprimir amor”.
A
narração bíblica prossegue com uma profecia sobre Adão. “Por este motivo, o homem deixará o pai e a mãe para se unir à sua
mulher e os dois serão uma só carne.” (Gn 2,24)
Dois
pontos básicos podemos extrair desta passagem, diz SS Bento XVI. O primeiro é uma continuidade dos
ensinamentos que seu carismático antecessor João Paulo II já dissera: “O ´eros´ está de certo modo enraizado na
própria natureza do homem.” Explica a necessidade do homem tomar a mulher
para se completar e formar uma unidade, embora permanecendo cada um com sua
personalidade própria.
O
segundo aspecto destacado por SS é o
“eros” impelindo o homem ao matrimônio. Estabelece então uma notável comparação
entre o relacionamento do amor de Deus único e definitivo para com seu povo, e
se torna o paradigma do amor no matrimônio monogâmico para sempre indissolúvel.
Pedimos
desculpas aos prezados leitores, por estarmos nos alongando, talvez demais, na
abordagem da Carta Encíclica em sua feição mais teórica, especulativa,
preterindo os anseios mais pragmáticos do apressado século XXI. Consideramos,
entretanto, que o desenvolvimento dado ao amor, em suas causas mais profundas e
seus consequentes efeitos, como o faz a Carta, o torna extremamente útil sobre
as decisões a tomar no cotidiano da vida, tanto nos momentos alegres como
naqueles difíceis, como veremos oportunamente.
Agradecendo
a Nossa Senhora sua proteção e lembrando que “... sem mim nada podeis.” (Jo 15,5)
Idalina
e Fernando
Equipe
de Nossa Senhora do Monte Serrat
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