TEMA 04 – Julho / 2016
Carta Encíclica DEUS É AMOR – SS Papa Bento XVI
(Continuação)
4. O cristianismo
destruiu verdadeiramente o eros ou
veio efetivamente demonstrar a que nível de degradação pode atingir o ser
humano, quando erroneamente orientado?
No
mundo pré-cristão, muitas culturas, além da grega, viram no eros o inebriamento divino, uma força
capaz de superar a razão além de seus limites, fazendo-lhe experimentar a mais alta beatitude. SS exemplificou com a
prostituição “sagrada” reinante em muitos templos, onde as prostitutas não eram
deusas capazes de suscitar a “loucura divina”, capaz de levar ao “êxtase”, mas
apenas pessoas abusadas e lançadas a aviltamento abominável.
O
Antigo Testamento reagiu firmemente contra esse erro fundamental, não contra o eros como tal – aliás nem poderia ir
contra a obra do Criador -, mas opôs-se a essa religiosidade pervertida, cuja
consequência leva à indignidade e desumanização. Se assim é, deduz-se que há
necessidade de disciplina, de purificação para dar ao homem não simplesmente o
prazer fugaz, vivido em um instante no vértice da existência, mas em algo mais
profundo desejado pelo nosso ser, quando visto na sua integridade.
5. Dando continuidade
às abordagens anteriores, SS parte do princípio da fé cristã que sempre
considerou o homem como um ser uni-dual, que espírito e matéria se compenetram
mutuamente, experimentando ambos, precisamente dessa forma, uma única nobreza.
Há
necessidade de equilíbrio entre ambos e somente quando o consegue é que o ser
humano se realiza. As culturas antigas, pré-cristãs, conheceram a força do eros, mas desvinculado do espiritual, o
que levou, ou melhor dizendo, leva à degradação.
O
cristianismo tem sido criticado, não raramente, de rejeitar a corporeidade.
Reconhecesse SS, com a sua habitual sinceridade, que houve no passado tendência
nesse sentido. Atualmente, entretanto, há, em oposição, manifesta e demasiada exaltação
do eros, em detrimento da real
grandeza da pessoa, restringindo-se ao campo meramente biológico. A sexualidade
é vista no sentido de uso e proveito próprios, podendo se tornar mercadoria,
objeto de compra e venda, degenerando-se facilmente em comum prostituição. No
final de suas considerações, SS relembra que o eros pode nos elevar até “em êxtase” para o Divino, requerendo,
porém, a prática da ascese, renúncias, purificações e saneamentos.
6. A partir das
considerações especulativas apresentadas, SS formula a pergunta concreta: Como deve ser vivido o amor para que se
realize plenamente sua promessa humana e divina?
Na sua procura para descobrir a
vontade de Deus sobre o amor, em seu plano de criação, encontrou alguma luz no
livro do Cântico dos Cânticos, do Antigo Testamento, tão conhecido pelos místicos. Teria sido, segundo interpretação
atualmente predominante, dirigido para uma festa israelita de núpcias,
elogiando o amor conjugal. O importante é que, na busca na essência do amor,
distingue-se uma primeira fase mais egoísta onde predomina o próprio “eu”, à
procura de uma felicidade inebriante, evoluindo para um amor amadurecido, onde
surge o interesse pelo outro, pelo seu bem, visto em seu todo.
SS vai então agora em sua
exposição, conduzindo para que entendamos ser o amor apenas para esta única pessoa e no sentido de ser para sempre.
Assim, o amor é abrangente envolvendo a totalidade da pessoa, em toda a sua
dimensão e não apenas um momento; tem um objetivo definitivo, até a eternidade.
7. Logo no início
deste documento, no tópico 2, “Um problema de linguagem”, SS aborda uma questão
primordial do amor: Todas as manifestações de amor, toda sua diversidade
exprimem uma só realidade ou são de fato totalmente diferentes?
Lembremo-nos
inicialmente que todo o ensinamento da Encíclica é fundado nas Sagradas
Escrituras e na Tradição da Igreja. Surge uma intrigante pergunta: a lição de
amor destas fontes, indagaria SS, teria
algo a ver com a experiência humana comum do amor ou, pelo contrário, se oporia
a ela? Sua resposta veio das duas palavras já postas no tópico 3 e
desenvolvidas no tópico 4. Se radicalizássemos a oposição dessas duas palavras,
conclui SS que a essência do cristianismo
terminaria desarticulada das relações básicas e vitais da existência humana e
constituiria um mundo independente, considerado, talvez admirável, mas
decididamente separado do conjunto da existência humana. A verdade é que o
amor expresso pelas duas palavras eros
e ágape deve andar junto e quanto
maior o equilíbrio, embora em distintas dimensões, tanto mais se realiza a
verdadeira natureza do amor em geral, podendo, caso a caso, uma ou outra
dimensão sobressair-se mais.
Todo
esse dinamismo do amor envolve um processo de maturação, exigente de tempo para
se desenvolver, cuja fase inicial é do domínio do eros, caracteristicamente egoísta, ambicioso, fascinado pela grande
felicidade. À medida, porém, que cresce a aproximação do outro, surge o
interesse em conhecê-lo melhor, mais profundamente, desperta o desejo de
doação, de “existir para” são sinais do advento do ágape.
A
Encíclica não acaba por aqui. Ainda temos alguns aspectos para serem
desenvolvidos, o que veremos nos próximos temas. Agradecemos a Nossa Senhora
sua proteção, lembrando sempre que “... sem
mim nada podeis”. (Jo 15,5)
Idalina e
Fernando
Equipe de
Nossa Senhora do Monte Serrat – Santos (SP)
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